A clínica de La Borde, em Cour-Cheverny (Vale do Loire, França), é reconhecida como um dos espaços mais fecundos do movimento da psicoterapia institucional. Trata-se de uma instituição psiquiátrica onde se exerce uma prática clínica na qual o cuidado cotidiano dissolve as fronteiras entre tratamento, convivência e criação coletiva.

Centenas de pessoas circulam diariamente pelo território da clínica. Pessoas em intenso sofrimento psíquico internadas na instituição, denominadas pensionistas, pacientes que frequentam o hospital-dia, visitantes e uma ampla equipe de trabalhadores¹ compõem esse fluxo contínuo, ali, onde a atenção ao outro e o trabalho com as palavras convocam a todos a criar outros mundos possíveis: nas bordas, nas derivas, nas aberturas.

São mais de setenta anos de trabalho desde que o psiquiatra e psicanalista Jean Oury (1924-2014) fundou a instituição, em abril de 1953, à qual dedicou mais de sessenta anos de sua vida. Quantos psiquiatras e psicanalistas conhecemos que tenham sustentado, por tanto tempo, o compromisso com um mesmo espaço de cuidado com pessoas diagnosticadas com as chamadas psicoses?

La Borde inscreve-se, assim, na história mundial das instituições animadas por experimentações. Trata-se de um espaço de inspiração libertária que buscou dar continuidade às experiências realizadas em Saint-Alban, hospital psiquiátrico onde, nos anos 1940, ocorreu uma verdadeira transformação conduzida, principalmente, pelo psiquiatra catalão Francesc Tosquelles (1912-1994), também psicanalista e antifascista. Exilado após a Guerra Civil Espanhola, Tosquelles pôde, junto de seus camaradas, repensar o espaço institucional e a direção de tratamento em saúde mental, envolvendo trabalhadores/as, pacientes e camponeses/as da região, isto é, mantendo viva sua perspectiva de geopsiquiatria.

A história de La Borde é atravessada, e projetada para além da França, pelas contribuições do psicanalista e militante Félix Guattari (1930-1992). Contudo, é importante lembrar as muitas outras forças que também marcaram profundamente a instituição, como Gisela Pankow (1914–1998), Danielle Sivadon (1936–2017), Danielle Roulot (1943–2019), Nicole Guillet (1930–2022), Ginette Michaud (1932–), Jean-Claude Polack (1936–), François Pain (1945–), entre tantos outros que ainda hoje contribuem com La Borde ou que, em diferentes momentos, participaram de sua trajetória.

O convite feito a cada pessoa que contribuiu com textos e entrevistas para este livro partiu de um mesmo gesto: o de criar um espaço de escuta e de partilha, capaz de fazer emergir algo daqueles encontros. Não se trata apenas de convocar memórias, mas de permitir que algo da própria atmosfera volte a circular entre nós. Portanto, solicitei que cada um pudesse escrever e falar a partir de suas lembranças e afetos ligados à clínica de La Borde. A partir daí, cada experiência seguiu por diferentes caminhos, passagens, deslocamentos, marcas. Memórias do que foi vivido, dos efeitos dessas experiências na vida cotidiana e nos trabalhos que se seguiram.

Esses testemunhos não são meros registros históricos, mas constituem um gesto de transmissão viva da força de um trabalho coletivo, dos encontros transformadores com os/as pensionistas, com a instituição e com modos singulares de pensar e fazer a clínica. São também os passos de brasileiras e brasileiros que ali encontraram lugar, inquietação e aposta. Experiências múltiplas que revelam a força da escuta, da invenção e da implicação subjetiva.

Essas histórias foram tecidas em outro idioma, o francês, e aqui, de certo modo, traduzimos não apenas palavras, mas também pensamentos, imagens e experiências. São textos escritos majoritariamente por psicólogas e psicanalistas. No entanto, sabemos que a instituição não se restringe aos “psis”: terapeutas ocupacionais e outros brasileiros também estiveram de passagem por La Borde. Porém, reuni-los nesta coletânea exigiria um outro trabalho de busca e de escuta. Por ora, ficamos com o que nos foi possível.

Ao longo de mais de três anos, escutei aquilo que pulsa no entre destes escritos. Aqui se cruzam tempos, afetos e intensidades distintas. Revi cenas, escutei vozes, sonhei com lembranças e desejos. Reencontrei a vitalidade de uma experiência que permanece viva. Reunir essas vozes é reencontrar aquela instituição e lançar no mundo algo de uma memória que insiste em se inscrever.

Organizar este livro a partir de nossas passagens por La Borde foi, antes de tudo, um exercício de retorno, e, ao mesmo tempo, a abertura de um novo impulso em direção ao futuro. Para escrever algo assim, é preciso um certo gesto de retirada, soltar a mão da borda. Partimos de La Borde, e, no entanto, retornamos a ela. Somos parte desse lugar, que, por exemplo, acolhe há mais de duas décadas uma oficina chamada “Brasil” e que, desde a sua origem, mantém alguma relação com este país. Por sua vez, essa instituição ocupa um lugar importante em nossa trajetória existencial. La Borde é um lugar de passagem, de pousos e de retornos.

Vale salientar que ninguém ocupa lugar especial nesse processo em La Borde: trata-se de uma prática de descentramento, abertura e invenção compartilhada, um “nós” que não se fecha em unidade, mas se arrisca no comum. No Brasil, muitas trabalhadoras e pesquisadoras da saúde mental conheceram La Borde apenas por fragmentos, mediadas pelas falas e textos de Jean Oury e Félix Guattari ou apenas memórias orais, registros dispersos de uma ou outra pessoa que já esteve por lá. Este livro reúne pessoas de diferentes épocas e atualiza essas histórias ao cruzar tempos e afetos de quem realizou um trabalho na instituição, seja por algumas semanas, meses, anos ou mais de uma década.

Diante dos enigmas que a cercam, La Borde pode parecer um lugar quase místico para quem se interessa pela psicoterapia institucional ou pela obra de Oury e Guattari. Mas a misticidade dissolve-se ao chegar, pois o lugar revela a intensidade concreta do trabalho coletivo, cotidiano, ininterrupto, realizado vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Vivê-la é experimentar o espaço com o corpo, arriscar-se na língua e nos mal-entendidos, dispor-se a comunicar e deixar circular as palavras.

Acredito que não seja possível definir La Borde, mas, pelos textos que seguem, algo poderá ser dito a partir de nossas experiências. Desde já, convido vocês a acolherem a heterogeneidade dessa instituição, assim como suas loucuras, seus impasses, conquistas, diferenças e singularidades. Essencializá-la ou generalizá-la nunca fez parte do caminho aberto por seus iniciadores. Trata-se sempre de um trabalho singular feito por um conjunto de pessoas. Afinal, como sustentar uma angústia sem um lugar, uma rede de pessoas que possa acolher e possibilitar um espaço para cada um?

Um sorriso, um aprendizado, uma troca, um cuidado, isso se passa em La Borde. Posso afirmar que essa clínica é um dos lugares onde se constrói continuamente, de maneira coletiva, um corpo. Não há muros nem mesmo um portão que marque um fechamento do território. O espaço se abre para os campos e a estrada. A quem chega, não se pede um saber pronto, mas uma disposição: estar com os outros, pensar-junto.

A vida comunitária mostra-se possível, apesar de ser também cansativa, principalmente pela quantidade de reuniões ou encontros grupais em oficinas e nos momentos livres. A carga horária de trabalho pode variar entre seis e oito horas por dia, mas para quem mora na instituição, como alguns estagiários e monitores, torna-se mais difícil se desligar do trabalho. Nessas horas, sentimos como se não houvesse um “fora” de La Borde, pois diante do limite dessa experiência, o corpo se encontra tomado pela intensidade da vida institucional. Às vezes, o fora desaparece também por excesso de implicação. Mas como desligar? O fora não está dado! Trata-se de um exercício a ser inventado e sustentado, seja de maneira individual ou/e grupal. E essa é também uma parte bonita dessa história que guardamos conosco.

Oury disse a Danielle Sivadon que, juntamente com Guattari, afirmavam o seguinte: “Para poder estar aqui é preciso poder estar em outro lugar”. Se não podemos estar em outro lugar, não estamos aqui². Essa frase condensa algo importante, um princípio clínico e ético que nos liga à psicoterapia institucional em que é preciso ter em vista que só há presença clínica verdadeira onde existe a possibilidade de passagem, de linhas de fuga, ou seja, de deslocamento, de saída e de exterioridade, pois onde não há fora, não há aqui. Estar aqui é estar disponível, vivo no encontro. Sem o fora, a transferência deixa de circular, se fixa, e o trabalho clínico perde o espaço necessário para respirar.

La Borde ou o direito à loucura?³ Talvez, mais do que isso, La Borde e o direito à diferença. Como dizia Tosquelles: “Onde desaparece a loucura, desaparece o humano”. Cada pessoa carrega sua diferença. Nos sintomas, nas fantasias, nas palavras, no modo de existir. Entre diferenças, amizades e amores se tecem, fazendo a palavra circular e oferecendo companhia à solidão. Livros, reuniões, cozinha, oficinas, música no rádio ou no piano, o fogo na lareira… tudo participa do tecido afetivo que sustenta essa instituição.

A vida em La Borde é a sensibilidade coletiva de construir, diariamente, um mundo possível com a diferença e com o estrangeiro. Convido quem nos lê a descobrir um pouco mais dessas intensidades e passagens que aqui se fazem presentes mais uma vez, não para se estender, mas para precisar o essencial.

NOTAS:

1. Entre estes estão estagiários/as, enfermeiros/as, auxiliares de enfermagem, terapeutas ocupacionais, educadores/as, monitores/as, animadores/as de oficinas, uma assistente social, equipe do setor administrativo, de cozinha e de manutenção, profissionais da creche, médicos/as psiquiatras, além de colaboradores externos, como psicanalistas, fisioterapeutas e podólogos/as.

2. OURY, Jean; SIVADON, Danielle. Constelações: Conversações em La Borde (2004). Cadernos de Subjetividade, São Paulo, v. 1, n. 22, p. 189–210, 2025. Disponível online.

3. A expressão La Borde ou o direito à loucura remete tanto ao livro de Danielle Sivadon e Jean-Claude Polack, La Borde, ou le droit à la folie (Paris: Calmann-Lévy, 1976), quanto ao documentário homônimo dirigido e escrito por Igor Barrère (França, 1977, 63 min). Acerca do livro, Paul Brétécher afirma o seguinte: “Este livro, atacado pelos esquerdistas da revista Garde-fous, ignorado pelos acadêmicos e detestado pelos defensores do confinamento, é certamente a monografia mais original dedicada a esse lugar fora do comum. É preciso relê-lo hoje” (BRÉTÉCHER, Paul. Pour Danielle. Chimères, v. 92, n. 2, p. 11–15, 2017. Disponível online, tradução livre).

* Texto publicado em "Passagens por La Borde: clínica e instituição" (2026, cinco edições, org. Anderson Santos).